<$BlogRSDUrl$> do seu site -->

terça-feira, fevereiro 10, 2004

A mulher que abria os guarda-chuvas dentro de casa, que rangia fantasmas no soalho, que coroava a sua viuvez, vestia as paredes de preto, as frinchas de luminosidade rendadas de preto, e olhava para a cidade, por uma janela de vidros partidos, rindo triunfal das carpideiras e dos desejos inimigos. Saltava por entre os guarda-chuvas abertos e pelos gatos que defecavam nas suas costas, pulava meio louca, brincava com lágrimas de crocodilo e gatos pretos. Acariciava-se no rosto e no seio e na mulher e no desgosto, plantava os vestígios num canto, num recanto da casa, no seu jardim. E quando os dedos subiam pela testa eram raízes e não cabelos que tacteavam. E seca ela abria o seu jardim. A mulher que abria os guarda-chuvas dentro de casa, os gatos, os disparos de chuva nas suas mãos, rindo de prazer e de agonia, do imenso azul que sentia existir para além de tudo o que não é azul, de saber, algum dia, dessa coisa de ser feliz.
Eu amo-te
Tu amas-me
Ele sabe

[intromete-se no seio, no meio, nas fendas, no túmulo

Nós entregamos os corpos
Vós escutais os silêncios
Eles estrangulam as manhãs

segunda-feira, fevereiro 02, 2004

Beijar-te
Na face
No pescoço
No seio
No umbigo
No sexo
Ouvir o teu suspiro e regressar
Morder
A ponta fria da tua orelha
A ponta quente do teu mamilo
Os teus ombros de ardósia
Deixar as mãos correr nas tuas
Tactear o sorriso mudo que usas
Pintar-te a montanha de Vénus
Saliente
Húmida
Como o cerne de lava de um vulcão
Pêlos escuros
Cerrados
Densos
E na densidade colocar a mão
Subir como quem escorrega
Cerrar os punhos
Gritar como quem se cala
Penetrar no teu segundo
Ignorar o mármore e as horas
A mesa e a saciedade
Escutar a tua respiração
Roubar-te todo o ar
Sentir os espinhos que cravas
Nas minhas costas
Vestígios do prazer
E beijar-te
E morder-te
E tactear-te
E penetrar-te
E vir como quem parte
Para o longínquo abraço
Para os cabelos que afagas
Para a brisa tépida
Para a luminosidade translúcida
Para o desmaio nos teus braços
Entrando dentro da tua pele
Dentro do teu cheiro de aveia
E como quem semeia
Ganhar asas anil
O orgasmo de papel
A madrugada pueril
Por dentro um do outro segredamos
Segredos que de tão secretos não revelamos
Têm sangue e sémen e vida
Demasiado pequena para a nossa partida
Mas não nos conformamos…


Os amantes



domingo, janeiro 25, 2004

“Estica bem as asas… As minhas batem por ti e em breve tocarão as tuas… E a vida será o nosso voo.”

00.00 horas 25/01/04

O princípio de amor é um horizonte que amanhece numa paz, numa mensagem prolongada por um sentir de infinito. São dois movimentos, duas asas que batem, a destruição dos limites e o porto de abrigo de um abraço. É desse jeito toda a mensagem de amor, enorme, oceânica, levando-nos longe e ao mesmo tempo pequenina, serena, aconchegando-nos das tempestades. É desse jeito toda a mensagem de amor, o visor ilumina-se, esverdeado, é só para dizer que deste lado tem alguém que te ama, como na canção, entrando dentro da tua orelha fria, vivendo debaixo do vento, a todo o momento, segredando desejo e entregando o coração.

Carta

Destinatário: Desespero

Remetente: Ilusão

Envelope: branco como a tua pele assaltada por uma brisa de Inverno; os teus lábios lambem o meu pénis flácido, as tuas mãos selam as memórias de um tacto, de uma partilha, de uma jura de amor. Encerras o envelope e não existe mais nada. Ficamos fechados na caixa postal de uma impotência, de um sem sentido, de um atroz esvaziamento do que antes era certeza de eternidade. E viajamos, pelos tactos, pelas mãos, pela náusea que nos tornará inimigos.

Conteúdo: abres a mulher, entro em ti, finges o orgasmo, sufocamos uma distância.

Pós Sexo: acendes o cigarro, a cinza espalha-se pelo meu corpo, suja-me.

Foi demasiado cedo, quando já era demasiado tarde. Assinado: o tempo destrói tudo.

sexta-feira, janeiro 02, 2004

Telegrama

Fizemos amor STOP O órgão desceu invisível STOP Redesenhou a flor do teu sexo STOP Desabrocharam manhãs STOP Explodiram sorrisos STOP Uma pétala rasgada sangrou STOP Pela lisura das tuas coxas a mulher e os receios partidos STOP

sábado, dezembro 27, 2003

O amor é essa quantidade indizível, essa coisa exacta e, ao mesmo tempo, imaleável. Esse tacto de realidade que desfalece como cascata espessa no sentir dos teus cabelos… Amor é personificação, é nome, é corpo, é textura, é templo. Todo o amor é um templo. Todo o amor é frágil. Todo o amor padece. Todo o amor é arqueologia dos sorrisos, dos olhares, da vez em que as mãos se entrelaçam e dizes: Eu também… Eu também…
Eu também sou poeta, disse o meu grande amigo Pedro (nalgas), quando o amor o tomou como uma praga. Uma praga bíblica, uma praga de um deus irado, como ardem todas as paixões, como só arde a dele, porque amor é posse. Eternidade do instante.
Amor é templo. Amor para Pedro é Diana.
Seja um dia o seu desejo o amor entrando no templo de Diana. E as palavras que se seguem serão nada mais que artefactos dessa escavação, dessa arqueologia que é amar alguém…


“Sei que não quero acreditar, não quero ver, e a tua recusa faz-me sofrer… A indiferença que dás e tiras no momento seguinte, no mais ínfimo gesto que tudo significa… A pressão que dentro de mim se esconde, anseia por um escape que tarda em aparecer… E o meu coração arde... Chamas que queimam no momento eterno que é pensar em ti, a dor que me faz gritar no silencio, chamar o teu nome, e no delírio prender-te...” Nalgas.
O amor é uma catedral pintada na água. Todo o beijo de amor é líquido.


Eras tu e não eras tu
Estavas e não estavas
Gostas de mim? – perguntavas repetidamente.
Dizia-te ao ouvido frio que sim
Mas não importa
Não é a resposta que te faz
É a pergunta que te traz
Essa angústia
Esse receio de ficar
A euforia toda na vontade de partir
Caminhar pela estrada
Essa mesma estrada
De calçada entranhada
De entardecer
De entristecer
Na linguagem do fugir
Eras ondas e não eras
Eras ir e voltar
Eras mistério no fundo do mar
Eras mar
E morreste afogada
Quando choveu demasiado naquela tarde
Quando descobriste que nem o amor te podia salvar
Choraste chuva
O céu choveu lágrimas
E eu vi-te desaparecer
Desenlaçando a suspeita dentro de mim
Eras feita de vento
O teu corpo prenúncio de fim


segunda-feira, dezembro 22, 2003


Os meus nos olhos teus pela madrugada. Ainda tem cheiro do teu corpo, ainda tem saliva quente nos teus mamilos, ainda tem sombra entreaberta por uma luz, parede incendiada. O frio da madrugada. E nós espreguiçando o amor no limite, na vertigem do teu sexo, no perfil do teu rosto, os teus cabelos afagados e por debaixo o medo, o medo de ser feliz, estamos sempre por um triz, cada vez a última, cada cheiro o primeiro. Somos demasiado e o nosso amor soa a pecado. Devíamos ser sombras, simplesmente, penetrando um no outro, sem história, sem delimitação, sem periferia, sem palavras. Somos noite absoluta, prazer absoluto, e o tempo toca-nos devoluto. Sinto-te… O amor é sangue, é extinção, é barbárie, é tudo. Escorre um fio de sangue pelas tuas coxas. A realidade nos proíbe, existe entre nós corpos, existe sempre um limite. E quando partes fica a invenção. Sinto-te… Como se já soubesse que um dia partirás. Como se não quisesse mais saber. Como se mentindo baixinho para mim deixe de doer. Como se não tivesse nada. Não tenho nada. E na cama tem o teu desenho. Em mim tem Inverno. No papel que deixaste sobre a mesa. Tem adeus.

segunda-feira, dezembro 15, 2003

A história do pincel conta-se em dois raios de sol
O primeiro entrou ficando
Ela prendendo os cabelos com o pincel
O pescoço despido feito uma tela
Para o beijo em aguarela
Vertendo os lábios feito mel
O segundo entrou levando
O pincel pelas costas pintando
Fazendo cócegas nos seios
Deixando o quadro sem mais meios
Despido na parede
As mãos suadas na parede
E porque fazer amor dá sede
A noite entrou vindo fria
E os corpos se enrolaram
Como a cauda do gato que mia
No telhado pincelando lua cheia

This page is powered by Blogger. Isn't yours?


Nome:

E-Mail:

Assunto:

Mensagem:



Estigma - Filhos dum deus selvagem e secreto E cobertos de lama, caminhamos Por cidades, Por nuvens E desertos. Ao vento semeamos O que os homens não querem. Ao vento arremessamos As verdades que doem E as palavras que ferem. Da noite que nos gera, e nós amamos, Só os astros trazemos. A treva ficou onde Todos guardamos a certeza oculta Do que nós não dizemos, Mas que somos. - José Carlos Ary dos Santos Che-Lives.com - Click HERE hits.